Retrofuturismo e Steampunk

Há algum tempo já vemos espartilhos, sapatos e outros acessórios de moda que remetem ao século 19. Por muito tempo acreditei que a onda era mais pelo lado do fetiche e sadomasoquismo que volta e meia aportam nas semanas de moda, que por alguma corrente forte que pudesse estar se consolidando.

Eis que este fim de semana aportei em uma Convenção Steampunk, termo que desconhecia até umas 2 semanas atrás (trazido à tona em uma conversa no Bairro Gótico com anfitriões porto-alegrenses), para desobrir o que estava por trás (ou ia além) da moda couro, botões e engrenagens.

O retrofuturismo é uma grande corrente que começou pela literatura de ficção científica nos anos 70 e tratava de revisitar/reescrever imagens do futuro que haviam sido descritas ou “previstas” no passado. Ramificando-se em uma série de outros movimentos menores, no início dos anos 80, viveu seu primeiro “auge” com o cyberpunk, uma idéia sombria e pessimista do futuro, bem narrada no clássico Blade Runner.

Apesar de já se ver algumas manifestações nas décadas anteriores, é só em 1987 que a palavra Steampunk aparece pela primeira vez na revista Loccus. Os “steams” defendiam a antítese do cyber, um futuro mais otimista, baseado nas ideias e ideais surgidos durante a primeira revolução industrial ( daí o nome steam = vapor). De punk, nunca teve muita coisa, a não ser a contraposição à temática cyber.

O termo foi cunhado por um autor estadunidense de ficção científica, K. W. Jeter, para classificar certas histórias escritas por ele mesmo e por  Tim Powers e James Blaylock. Ambientadas na época da Revolução Industrial, geralmente na Inglaterra vitoriana, procuravam reproduzir o clima, o estilo e as convenções da literatura de aventura científica da época, como os romances de Mary Shelley (Frankestein), Júlio Verne (Vinte Mil Léguas Submarinas) e H. G. Wells (A Máquina do Tempo). Mostra uma realidade espaço-tempo na qual a tecnologia mecânica a vapor teria evoluído até níveis impossíveis (ou pelo menos improváveis), com automóveis, aviões e até mesmo robôs movidos a vapor já naquela época.

O movimento começa a tomar força nos anos 90, com o lançamento de diversos livros e quadrinhos. Entre os mais famosos estão “A máquina diferencial (livro de Gibson, o mesmo de Neuromancer, e Sterling)” e “A Liga Extraordinária“, que virou filme em 2004. No cinema, o tema foi explorado mais pelo lado estético que como crítica a sociedade, em filmes como A cidade das Crianças Perdidas (França, 1995), As Loucas Aventuras de James West (1999, baseado na série de 66, Wild Wild West), as animações japonesas Steamboy e O Castelo Animado (ambas de 2004), Van Helsing (2004), A Bússola Dourada (2007) entre outros.

Um artigo da carta capital, defende: “são essas fantasias visualmente exóticas, mais que o interesse pela cultura vitoriana ou pela especulação sobre caminhos alternativos da história, que seduzem os entusiastas do Conselho e das lojas Steampunk, muitos dos quais aplicam retroativamente o rótulo a obras não só anteriores como estranhas à proposta, (…) ou mesmo as obras de Verne e Wells, que em seu tempo pretendiam especular sobre futuros possíveis e não sobre uma realidade alternativa”.

A partir de meados dos 00s, com a internet, o movimento tomou forma como “tribo”, principalmente nos EUA, UK e Japão, tidos como grandes berços que geram conteúdos para os demais países. Neles, as convenções acontecem semanalmente e vão germinando subgêneros musicais como o punkfolk e o punkcabaret. Nos gadgets e na arquitetura, a idéia é revisitar e reformar produtos atuais ispirando-se no passado. Na moda, uma grande quantidade de designers (incluindo aqui os últimos trabalhos de Alexander McQueen) estão se especializando em produzir moda para esse grupo, cada vez maior de aficcionados. Aqui em Barcelona, Bibian Blue é um dos grandes nomes do movimento.

Hoje, a estética é explorada em coleções de grandes lojas espanholas como Zara, stradivarius e Mango, se apropriando do mix vintage, anos 20, era vitoriana para criar coleções que, se não se pdoem considerar steam, mostram clara inspiração no tema.

É ficar de olho para ver como evolui. Se segue como tribo declaradamente brincando de faz de conta, ou se avançará e conseguirá se apresentar demaneira ampla (literatura, música, costumes) para o mainstream.

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